O Futuro do Receituário Médico

A primeira referência de que cada ser humano tem uma resposta individual ao efeito dos medicamentos, é atribuída a Pitágoras. Em 510 a.c. o matemático Grego descreveu uma intoxicação causada por um tipo de fava (planta da família das leguminosas) que acometia algumas pessoas que a ingeriam. Mas a farmacologia ligada à genética só apareceu como ciência nos meados do século XX, com a demonstração de que o efeito de certos medicamentos ou drogas estava associado a alterações genéticas. O exemplo mais conhecido é a baixa tolerância dos orientais ao álcool, associada à variação de gens que codificam a enzima álcool desidrogenase, mais prevalente em populações de ascendência asiática, particularmente a japonesa.

Com a pesquisa do genoma humano, a terapêutica torna-se personalizada, ou seja, o remédio será prescrito na dose para cada indivíduo, com base no conhecimento dos fatores que regulam a absorção, ou seja, a quantidade de remédio capaz de atingir a corrente sanguínea, sua difusão, que é o mecanismo básico para que o fármaco atravesse as membranas biológicas e principalmente a via em que é administrado, (oral, injetável, sublingual, retal) fator determinante na velocidade de ação do remédio.

Na cardiologia, o exemplo de medicação cujo efeito terapêutico é mais lento ou mais rápido, é a warfarina, anticoagulante amplamente usado após cirurgias cardíacas e na prevenção da trombose venosa. Os efeitos colaterais dos remédios são individuais e, portanto alguns pacientes necessitam de um acompanhamento clínico mais frequente. Citando outros exemplos de resposta individual, temos a estatinas, usadas para o colesterol elevado e os betabloqueadores usados com anti-hipertensivos e antianginosos (angina de peito). Outras especialidades, que em curto prazo terão marcadores farmacogenéticos, são psiquiatria, neurologia e oncologia. Uma queixa comum nos consultórios médicos é a intolerância a determinados medicamentos e a demora de seu efeito. É comum o paciente referir que depois do terceiro antidepressivo conseguiu sair da depressão, como também no tratamento da pressão alta.

O futuro do receituário médico seguro e tranquilo, juntamente com uma relação médico paciente de muita confiança e amizade é a implantação da farmacogenética na prática médica. Com poucas exceções (os oncologistas são uma delas), a grande maioria das especialidades médicas ainda está pouco familiarizada com as técnicas de biologia molecular. Um grande desafio para a implantação da farmacogenética na prática clínica ainda é a elaboração de protocolos clínicos que tirem o máximo proveito da informação sobre o perfil metabólico dos pacientes. Prescrever um remédio eficaz, seguro e sem efeitos colaterais é o sonho de todos os médicos, principalmente no tratamento das doenças crônicas e degenerativas

Mas continuaremos sem responder a doce pergunta: Doutor, qual o remédio para os males da alma?

Rui Peixoto
Médico Cardiologista

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