A Dor Física e a Dor Psíquica

“A dor crônica é como as ondas do mar nos rochedos.
Sem fim”

(Dr. R. Moreira – Angola)

A dor física não é apenas um fato fisiológico, mas acima de tudo, um fato de existência. Não é o corpo que sofre, é o paciente por inteiro. A dor não é apenas a medida de uma lesão (infarto) ou de uma afecção (angina), mas o encontro íntimo entre uma situação potencialmente penosa, e um homem imerso com sua própria situação dolorosa. Com efeito, empenhamos na dor toda a nossa personalidade, todo o nosso ser. E a dor permanece um mistério, que despedaça o corpo e abala todas as nossas referências afetivas. O psicanalista J.D. Nasio sugere que “a dor remeteria ao corpo e a sensação, ao passo que o sofrimento remeteria ao psiquismo e a emoção. Do ponto de vista analítico não há diferença entre dor física e psíquica”.

Continuamos a dizer que há uma dor corporal, uma dor psíquica e uma dor psicogênica, embora saibamos que existe uma unidade no conceito de dor.
Sabemos responder como se produz uma dor. Mas não sabemos dizer o que é uma dor no corpo e no espírito.

Nos plantões médicos, quando não encontramos nada para explicar organicamente uma dor, temos a tendência a dizer: Isso é psíquico. Parece-me que quando dissemos isto, não dissemos nada. A dor psíquica é mais predatória que a dor física.

A dor crônica leva a perda da auto-estima, da autocrítica, traz a tristeza e a melancolia, o distúrbio do sono e a sensação que a vida perdeu a graça. Estes sintomas são de depressão. A depressão é extremamente dolorosa. Em compensação, o maior avanço científico na medicina moderna é no campo da analgesia, no combate a dor.

Existem múltiplos profissionais envolvidos e inúmeros medicamentos eficazes usados na clínica diária, principalmente na dor crônica, que é um dos fatores de incapacidade física mais importantes na atualidade.

Santa Casa, final de plantão na enfermaria 8, Cardiologia, a Religiosa informa que o paciente com aneurisma de aorta, secundário a sífilis, gostaria de falar sobre sua dor. Como médico residente do segundo ano, me achando médico (que sentimento inesquecível) sento junto ao leito. “A minha dor maior é que ela nunca me escreveu uma carta, meu jovem Doutor”.

Entro no Bar do Pernambuco, no IAB em frente à Santa Casa, encontro o Professor Pedro Luiz Costa, titular da Cadeira de Obstetrícia e relato o caso clínico. O querido Mestre diz: “é uma dor linda e muito sofrida. Comparo com a dor do parto, quando as contrações são dolorosas, acompanhadas, depois, com risos ou choros de alegria. A dor física e a emocional caminhando juntas”. Resumiu o inesquecível Professor.

Rui Peixoto
Médico Cardiologista

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