Nossos lugares escuros: o coração e a alma

“Escrevo para iluminar os corredores da minha alma”.

José Eduardo Agualusa

Em artigos anteriores, entusiasmados com as novas abordagens para o tratamento das cardiopatias, escrevemos sobre este órgão tão simbólico.

A simbologia do coração, passa pelos escapulários, árvores dos parques, mas principalmente, pelo intimismo da paixão. E do corpo, a porção que sente saudade, ódio e amor. Quase tudo simultâneo. Nada é mais antigo que definir caráter, jeito, usando o coração. De ouro, de pedra, de vidro, solitário e, de Lorca, o coração cigano. Mas nada disso impediu que as doenças cardiovasculares continuassem sendo a primeira causa de mortalidade no Brasil e no mundo.

Os fatores de risco para o primeiro evento coronariano (infarto, angina, morte súbita) continuam sendo os mesmos: idade, história familiar (pai com infarto antes dos 50 anos e mãe antes dos 55), pressão alta, diabetes, fumo, obesidade, sedentarismo, colesterol elevado, colesterol HDL baixo (colesterol bom), síndrome metabólica (hipertensão, obesidade central, HDL baixo, glicose elevada…), transtornos de ansiedade e depressão.

Em tempo: o ódio e a raiva são gatilhos para a morte súbita.

Acompanhando clinicamente os pacientes pós-infarto do miocárdio, sempre escutamos a mesma indagação: por que o meu coração me abandonou? Que fazer daqui para frente como infartado? Leminski em sua poesia Além da Alma responde: “Meu coração lá de longe faz sinal que quer voltar. Já no peito trago em bronze: Não tem vaga nem lugar. Pra que é que eu quero quem chora se estou bem assim, e o vazio que vai lá fora cai macio dentro de mim”.

Quem trabalha com pacientes terminais (em busca da morte digna) escuta o doloroso lamento: gostaria de salvar minha alma.

Na infância, em casa portuguesa, oriunda do continente ou das colônias africanas, costumávamos escutar: “A alma cai onde o corpo encontrar a morte. Fica por ali a rondar perplexa e, se outro corpo passa no local, ela por vezes adere a ele. Almas podem incorporar em aves, flores e outras coisas. A maioria das almas são boas e sopram seu saber nos ouvidos dos poetas e nos seres humanos sensíveis”. As almas errantes são os fantasmas, diziam os Encaminhadores de Espíritos em Angola para assustar as crianças.

Descartes dividiu o homem entre o corpo e a alma e estabeleceu que o primeiro seria objeto da ciência, e a alma, bem, a alma pertence a Deus.

Vivendo mais tempo e morrer curado? Que se possam viver muitos anos e morrer com boa saúde, atualmente, graças à ciência, não é absurdo e nem contraditório. Mas continuaremos a conviver com nossos lugares escuros, os sentimentos do coração e a imortalidade da alma.

ZERO HORA
16/03/2011

Rui Peixoto
Médico Cardiologista

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