Personalizando a dieta: humanizando o atendimento ao paciente de Nutrição

Profissionais de saúde se deparam diariamente com pacientes portadores das mais variadas doenças. O seu dia-a-dia profissional é rodeado por desafios constantes que surgem a partir do convívio com o desconforto e o sofrimento desses pacientes. Essa proximidade os leva à reflexão do seu verdadeiro papel no universo tão complicado que é o de conviver com o processo da doença.

Muitos criticam a falta de humanização nas instituições de saúde e até mesmo políticas públicas já foram criadas para incentivar a humanização nos atendimentos. Mas, afinal, o que é humanizar? E precisamos humanizar para quem? Para os doentes e seus acompanhantes, para os médicos e os enfermeiros, enfim, para todos os funcionários e demais pessoas que circulam no ambiente hospitalar?

A iniciativa de humanizar o atendimento de saúde deve partir de pontos diversos, portanto, cabe a cada um de nós, tanto profissionais de saúde quanto pacientes, fazermos nossa parte, exigindo que gestores incentivem a humanização e que cada vez mais políticas de Estado que contemplem o ato de humanizar sejam criadas.

No Grupo Hospitalar Conceição, local em que trabalho há cerca de 20 anos, temos muitos problemas estruturais de área física, de fluxos e de recursos financeiros, mas também temos um valor inegável que é a qualidade do atendimento aos pacientes acolhidos pelos colegas de trabalho. Tenho um colega, por exemplo, que adotou uma forma especial de chamar os seus pacientes para a consulta: cada vez que os chama, faz questão de complementar seus nomes com o nome da cidade de onde são provenientes, por exemplo, “Sr. João, de Barra do Ribeiro”. Vejo isso como um exemplo de humanização do atendimento, uma vez que o profissional de saúde particulariza e individualiza aquele paciente, que passa a ser identificado de forma única e que, dessa forma, passa a ter um atendimento mais personalizado, humano e qualificado. Uma forma simples de tornar a saúde pública um pouco mais humanizada.

Há alguns anos, quando ainda atuava em outra área do Grupo Hospitalar Conceição e estava envolvida com a integração e o treinamento de funcionários, estagiários e residentes, procurava colocar para os jovens que ingressavam nesse campo complexo de trabalho algumas das dificuldades que temos ao conviver em um ambiente hospitalar. Usava como comparativo didático a diferença entre trabalhar em dois lugares tão grandes quanto e de movimento similar ao de um hospital: trabalhar em um aeroporto ou shopping é conviver com frequentadores alegres, perfumados e elegantes, que buscam diversão e lazer; trabalhar em um hospital é conviver com frequentadores em dor constante (física ou psicológica), em sofrimento, ansiosos pelo diagnóstico e que buscam uma cura. Tudo isso para tentar contextualizar a forma de atendimento que deveria ser dado a esses pacientes, que sempre estão em uma situação delicada e que merecem atenção especial por causa disso.

Na área da Nutrição, lidamos também com o sofrimento e a dor do nosso paciente, mas a humanização do atendimento recai, a meu ver, em um aspecto bastante prático e de fácil aplicação. Trabalho em um complexo hospitalar que atende pacientes provenientes de várias regiões do Rio Grande do Sul e que trazem consigo hábitos alimentares que há anos estão enraizados em suas microculturas, hábitos que estão diretamente relacionados às condições de clima, solo, agricultura, pecuária e ao tipo de colonização de suas regiões.

Quando me deparo com um paciente que tem por hábito se alimentar de churrasco, de carreteiro de charque e de farinha de mandioca, ou então se alimentar de polenta na chapa do fogão à lenha e tomar vinho no café da manhã, ou ainda de comer cuca com linguiça e schimier, sinto-me desafiada a fornecer a esse paciente uma orientação dietética que possa se aproximar dos seus hábitos alimentares já estabelecidos. Os hábitos são muito peculiares, mas é possível seguir os princípios nutricionais exigidos pelas doenças pelas quais os pacientes estão sendo atendidos e adaptar aos seus hábitos.

Simplesmente dizer não pode ou prescrever a Dieta Mediterrânea é criar mais uma barreira à aderência ao tratamento e, principalmente, não pensar no outro como um sujeito que carrega uma bagagem cultural bastante pesada, como nos exemplos citados anteriormente. Ignorar essa cultura é não humanizar o atendimento.

Pela prática adquirida ao longo dos anos, percebo como os pacientes precisam da individualização e da parceria com o profissional de saúde. O olhar ansioso e sofrido do paciente que se pergunta o que ela vai me proibir de comer?, idealmente, deve se tornar cada vez mais raro durante as consultas nutricionais em função da adoção de um atendimento humanizado.

Conhecer o paciente aproveitando sua bagagem cultural e os hábitos alimentares já arraigados ao oferecer um tratamento dietético, individualizado e personalizado, resulta na criação de um vínculo profissional de saúde-paciente mais forte, na construção de uma parceria que com certeza trará resultados benéficos e melhorias aos índices de adesão ao tratamento nutricional. Esse é o papel do Nutricionista: se desafiar cada vez mais, personalizar o atendimento e cativar os pacientes, ajudando a humanizar a saúde.

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