A morte em crônicas

Aqui jaz um artista, mestre em desastres. Viver com a intensidade das artes levou-o ao infarte.

Leminski

Acompanhando a história natural de muitos pacientes, pós infarto de miocárdio, sempre escutamos a mesma indagação: Porque o meu coração me abandonou? O que fazer daqui pra frente como infartado?.

“Meu coração lá de longe faz sinal que quer voltar.
Já no peito trago em bronze: não tem vaga nem lugar.
Pra que me serve um negócio que não cessa de bater?
Mais parece um relógio que acaba de enlouquecer.
Pra que é que eu quero quem chora, se estou tão bem assim.
E o vazio que vai lá fora cai macio dentro de mim”.

Tratamento clínico, ponte de safena, angioplastia e o coração volta sempre. Em ZH – “A morte não importa, é o medo do sofrimento”, artigo sobre o medo e a escolha de uma morte digna, longe das Unidades de Tratamento Intensivo – morte solitária. As manifestações de inúmeras pessoas, independente da faixa etária é a da busca de uma morte sem sofrimento.

“Antigamente se morria, 1907, aquilo sim é que era morrer, morria gente todo dia e morria com muito prazer já que todo mundo sabia que o Juízo, afinal viria e todo mundo iria renascer.

Morria-se praticamente de tudo. De doença, de parto, de tosse. E ainda se morria de amor como se amar forte fosse pra morrer, bastava um suspiro pronto, lá se ia nosso defunto para a terra dos pés juntos… Descansou… Partiu. Que mais podia um velho fazer, nos idos de 1920 a não ser pegar pneumonia, deixar tudo para os filhos e virar fotografia. Hoje, a morte está difícil, agora a morte tem limites. E em caso de necessidade a ciência da eternidade inventou a crônica. Hoje sim pessoal a vida é crônica”. Paulo Leminski, poeta e cardiologista nos seus escritos.

Banalização da morte – morre-se jovem, velho, na mesma proporção estatística. Estamos em um mundo em que viver é quase desaforo e morte digna suicídio assistido.

Rui Peixoto
Médico Cardiologista

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