O Marketing das Carnes Vermelhas

Richard Jakubaszko *

No marketing dos três tipos de carne, ou seja, de aves, suínos e bovinos, existem milhões de interesses cruzados, nem sempre confessáveis, e isso será o foco deste artigo. Como alimentos consagrados, as carnes proporcionam a necessária proteína e, ao mesmo tempo, nos satisfazem nas necessidades de sentir prazer nos alimentos.
Assim, o marketing que tem sido praticado com relação às carnes está absolutamente correto, e quase nada há para ser corrigido ou mesmo criticado. Há, entretanto, alguns grandes senões que abordaremos a seguir. Até porque, para agregar valor na área de comercialização de carnes seria necessário um marketing de gigantes e implicaria enormes investimentos em pesquisa, de um lado, e em propaganda, de outro.
Na área das três carnes, existem dezenas de marcas consagradas pelos consumidores, considerando-se o Brasil como grande mercado consumidor. Há produtos diversificados, cortes especiais, forte e competente distribuição, fiscalização sanitária do governo, um padrão classificatório de carcaças em aves e suínos, que ainda faz falta nos bovinos, e constante melhoramento genético.
Na avicultura, há uma concorrência acirrada e competente, tanto para atender ao mercado interno como às exportações. O maior problema do setor está nos custos de produção elevados e na baixa rentabilidade da avicultura de carne ou de ovos. A altíssima produtividade mostra diferenças mínimas entre avicultores, independentemente do tamanho de cada um deles. A lucratividade é conquistada na economia de escala e em se manter rigorosos padrões de controles sanitários para evitar a entrada de doenças que colocariam em xeque não apenas os lucros, mas a própria sobrevivência do aviário.
Trata-se de um mercado maduro e estável, em que apenas grandes pedidos destinados à exportação poderiam fazer oscilar as cotações. Na verdade, mesmo estes pedidos pouco afetam o mercado, porque são feitos com muita antecedência, permitindo que o mercado se ajuste. A carne de frango encontra a cada dia novas formas de chegar ao consumidor, semi preparada, ou mesmo em sofisticados pratos prontos, garantindo, estimulando e fidelizando o mercado de consumo. Não foi à toa que a carne de frango, juntamente com a agricultura, foi uma das âncoras do sucesso do Plano Real.
Devem-se policiar e punir as malandragens de alguns abatedores que adicionam água em excesso ao frango congelado, para conquistar um peso adicional. O consumidor não é bobo e não gosta de se sentir lesado. E lesar o consumidor é a verdadeira ação de anti-marketing, é um autêntico tiro no
pé, para não se falar em burrice, dura pouco tempo a enganação.
Na suinocultura brasileira, caminha-se também para a obtenção dos mesmos padrões existentes na avicultura, de competência produtiva e também de distribuição. No caso, trata-se de uma economia de escala menor e o maior problema mercadológico da carne de porco está no seio da medicina, resistente ao seu uso e consumo de forma repetitiva. O médico é o primeiro a proibir o consumo desse tipo de carne ao primeiro sinal de qualquer tipo de distúrbio na saúde dos clientes, principalmente aqueles ligados aos problemas cardiovasculares, e mesmo quando ocorrem os do aparelho digestivo ou as manifestações agudas de alergias. Essa, sem dúvida, é uma questão cultural, pois a milenar medicina chinesa, ao menor sinal de debilitação dos pacientes, preconiza o consumo da carne de porco, enquanto nós brasileiros nos limitamos a consumir a centenária “canja de galinha” das vovós. (O rebanho suíno na China segue a mesma proporção de grandiosidade da população humana, pois supera a casa das 350 milhões de cabeças.)

Em paralelo, acusa-se a carne de porco de ser uma das responsáveis pelos altos índices de colesterol, juntamente com a carne de vaca, como se costuma chamar, ou as carnes vermelhas. Diante dessas acusações, já antigas, jamais percebi qualquer tipo de reação mais concreta dos suinocultores, afora alguns rápidos e leves adjetivos, em conversas pessoais, do tipo “isso é bobagem”. É verdade que se tentou produzir o porco light, mas os médicos retrucaram que os perigos deste seriam iguais aos das carnes vermelhas, e o porco light não decolou. A questão, invocando o apoio dos chineses, é cultural, e nisso o marketing pode ajudar, como veremos adiante neste capítulo. Verificam-se, nos tempos contemporâneos, aumento expressivo de consumidores vegetarianos. Embora já tenha esmorecido um pouco, ainda resistem os adeptos da macrobiótica.

Rejeitam de forma veemente o consumo de qualquer tipo de alimento de origem animal, exceto peixes e crustáceos. Jamais serão consumidores em potencial de carnes, e, na grande maioria dos casos, um vegetariano convicto é radical até o fim de seus dias, não muda sua opinião como consumidor. Já ouvi ainda, centenas de vezes, “graves” acusações de vegetarianos contra as carnes vermelhas, e também as brancas, de que afora o fato de serem as causadoras do alto colesterol, em razão da gordura, as carnes provocariam ainda diversos tipos de câncer, devido aos hormônios que são liberados pelo estresse dos animais na hora do abate. E tudo isso sem considerar que bois na engorda receberiam hormônios, além do fato de os frangos consumirem antibióticos na ração durante toda sua curta vida de engorda. É essa imagem que tem prevalecido. Tudo isso tem um fundo de verdade, que se disfarça como “científica”, e que precisa ser mais bem trabalhado e avaliado. Já existem frigoríficos que evitam o estresse dos animais no abate, e, com isso, eliminam os perigos das toxinas do organismo do boi. Já o uso de hormônios, para incentivo de crescimento e engorda, é proibido no Brasil há algumas décadas.

Verifico, também já há muitos anos, as várias opiniões correntes na medicina, e que são muitas delas provenientes de pesquisas e estudos do Food and Drug Administration (FDA), poderoso e influente órgão do governo federal americano que administra e regula o uso de remédios e alimentos. Devemos saber que uma opinião ou parecer técnico emitido pelo FDA, nos EUA, em geral tem quase o valor de lei federal para todos os americanos, mas repercute e provoca influências em todo o planeta, em especial nos chamados formadores de opinião, médicos, cientistas e jornalistas. Longe de mim desejar ou querer levantar suspeitas sobre os estudos e pareceres técnicos do FDA. Instituições de pesquisa, em paralelo ao FDA, e de forma complementar, exercem essa mística de divulgar pesquisas científicas que têm se mostrado exacerbadamente polêmicas. Assim, analisarei, de forma direta e objetiva, algumas questões nessa área, pois devemos entender o que há por trás desses pareceres. Vemos as poderosíssimas indústrias farmacêuticas, que procedem a um fortíssimo lobby com os chamados órgãos de pesquisa, mesmo os públicos. Para essas empresas só interessa vender a todos nós seus fármacos e poções mágicas como panacéia para a solução de todos os problemas de saúde, e a peso de diamantes, ou ouro, como queiram. Em paralelo, e com propósitos e objetivos próprios, atua a não menos poderosa e também influente indústria alimentícia americana.
Se um doente, carnívoro ou vegetariano, tem deficiências de sais minerais a indústria farmacêutica tem as vitaminas sintéticas de todos os tipos. Se apresentar alto nível de colesterol, ou a pressão sangüínea está elevada, teremos betabloqueadores e diuréticos, mas estes nos fazem eliminar os preciosos sais minerais e nos obrigam a tomar as vitaminas, e assim por diante. Com exceção dos antibióticos e alguns poucos outros fármacos, a grande maioria das drogas na medicina é de uso contínuo, muitas vezes para o resto da vida do paciente, pois a indústria farmacêutica fideliza dessa forma os seus consumidores. O marketing da indústria farmacêutica começa na pesquisa… Se somente em poucos casos um remédio resolve em definitivo ou remove a causa do mal que afeta os doentes, na grande maioria das vezes apenas ameniza, ou, como prefere discursar de forma politicamente correta a poderosa indústria farmacêutica, “dá qualidade de vida aos pacientes”.

Cegos por não verem, os vegetarianos desconhecem e não percebem que a carne vermelha é uma das mais ricas fontes de ferro, vitamina B12 e zinco. A ausência de qualquer um desses três elementos provoca desbalanceamento no organismo humano, remetendo-nos aos caprichos da “Lei do mínimo”. Falta de ferro provoca anemias, em especial em crianças, idosos, gestantes ou doentes debilitados. Redução do zinco causa queda imunológica, infecções nas mucosas (aftas), dermatites, impotência sexual, redução de capacidade reprodutiva, e por aí afora. Não adianta ingerir depois 1 litro de vitamina C diariamente, sintética ou natural, pois ela será eliminada pelo organismo, por não interagir com os outros elementos químicos de que temos necessidade. O equilíbrio está na diversificação dos alimentos. Lamentavelmente, não são apenas os vegetarianos que não percebem isso, alguns médicos também não dão importância.
(Este autor pergunta aos produtores de chuchu, de alface, de maracujá, alho, e alguns chás e ervas: por que não divulgar que estes produtos da terra são excelentes diuréticos, ajudam a baixar a pressão, e repõem os tão necessários sais minerais?)

Tudo a um custo elevadíssimo, e pode-se dizer exorbitante ou até mesmo abusivo e escorchante quando o tipo de remédio é uma fórmula exclusiva de determinado laboratório, e que não tenha concorrentes. É nos interesses da indústria farmacêutica que navegam e estão balizados os múltiplos institutos de pesquisas científicas americanas, em especial algumas universidades, e de lá saíram as opiniões de que as carnes vermelhas causam mal à saúde de seus consumidores. Para esses órgãos de pesquisa, também faz mal à saúde consumir manteiga, seria preferível o uso da margarina, que tem “origem vegetal”, apesar de seus milhares de componentes sintéticos, dos conservantes e emulsificantes e também os acidificantes, todos de misteriosos números I, II, III e IV que constam, conforme determina a lei dos rótulos de qualquer alimento, inclusive margarinas, e são provocadores de alergias e sabe-se lá o que mais. Margarina é quase tudo, menos um alimento exclusivamente vegetal, exceto pela presença de soja ou milho, ou amendoim, que é apenas uma de suas múltiplas matérias primas em forma de gordura vegetal saturada ou hidrogenada. É um produto, a meu ver, de sabor isopor – e toda a Europa tem a mesma opinião sobre o assunto, inclusive a torcida do Flamengo – e de baixo custo de produção e venda quando comparado ao custo de produção da manteiga. A margarina tem um marketing altamente competente por trás de sua comercialização.

(Este autor é um alérgico, sobrevivente a inúmeros alimentos, entre eles feijão preto, banana, batata, chocolate, leite e alguns derivados, e alguns determinados fármacos e, sobretudo, a alguns conservantes de alimentos, cada um deles com maior ou menor intensidade de manifestações. A alergia é um problema pouco conhecido pela medicina, que apenas combate seus efeitos, e conhece algumas das substâncias e causas alergênicas, mas os efeitos devastadores são sempre individuais, porque essa é uma característica do ser humano.)

Não tenho a pretensão de colocar em discussão o valor alimentício da margarina, que é um problema de outra ordem e natureza, e inclusive porque foge à minha competência e especialidade. Apenas proponho um teste ao leitor: coloque num canto de sua casa dois pires, um com uma colher de manteiga e outro com a mesma quantidade de margarina e acompanhe duas ou três vezes ao dia, durante alguns dias, o que acontece por lá. A manteiga será visitada por baratas, formigas, até mesmo ratos se houver, e ao cabo de dez dias no máximo, se a temperatura estiver com média superior a 20° graus centígrados, iniciará o processo de mofo como qualquer alimento orgânico. Enquanto isso, a margarina estará incólume, não será degustada por nenhuma das espécies citadas e nem terá a presença de mofo. Dessa forma, após o teste, você, caro leitor, chegará à mesma conclusão que este escriba de que margarina é quase plástico, gordura hidrogenada e saturada. É produto vegetal, porém industrializado. Em análises químicas, as diferenças entre margarina e manteiga são pequenas no que se refere ao teor de gorduras. Mas, assim como as drogas da indústria farmacêutica, a margarina – em especial a feita com amendoim – é aprovada e até mesmo recomendada pelos diversos órgãos americanos de pesquisa. A manteiga é acusa de “criminosa”.

Também sempre achei estranho o fato de os órgãos oficiais americanos, apesar de aparentar muitas vezes como honrosa prática de verdade científica, ora recomendarem e ora desincentivarem o consumo de alguns alimentos ou substâncias. Nesse perfil está, por exemplo, o polêmico cigarro, considerado no passado importante alavanca para a fixação do ferro em pessoas anêmicas, a chamada anemia ferropriva, e também um “calmante”, uma “muleta psicológica” para pessoas mais nervosas, hoje em dia é considerado o principal causador de diversos tipos de câncer, em especial o de pulmão e esôfago. Porém, já vi muito fumante ultrapassar a barreira dos oitenta e morrer de outras causas.
Também nesse perfil estaria o nosso café, que já foi altamente criticado por ser uma substância que provocaria inclusive dependência, uma bebida que seria até mesmo alucinógena, para hoje ser elogiado o seu consumo, desde que na condição de café fresco, feito na hora, para controle e até mesmo eliminação das substâncias oxidantes, consideradas altamente tóxicas para o organismo humano. E já existem correntes de cientistas que afirmam que o café combate preventivamente o câncer de próstata. Da mesma forma o chocolate, antes combatido como causador de dependência aos chocólatras, hoje é considerado bom alimento, por equilibrar os chamados colesteróis bom e ruim, o HDL e o LDL. Os produtores de chocolate aparentemente fizeram um bom trabalho de marketing e conseguiram reverter as posições tanto do FDA como de outros órgãos de pesquisa. Tenho a nítida impressão de que o chocolate em excesso ainda causa problemas de saúde e obesidade. Entretanto, ele contém um princípio ativo positivo, e é nisso que o marketing vai atuar, esquecendo as outras questões que não são tão positivas. O benefício maior do consumo de chocolate, em pequenas doses diárias, suplanta as questões negativas do seu consumo. O consumo em excesso, ou as questões de causar dependência são de outra ordem e natureza. Assim, o marketing, como ciência e atividade, não é ético ou sequer moralista. Pelo contrário, é amoral. Desde que não minta, não precisaria dizer “toda a verdade”.
Uma recente façanha dos polêmicos órgãos de pesquisa americanos está em permitir e até mesmo autorizar que médicos recomendem publicamente, inclusive na TV, o uso diário de uma aspirina para reduzir os perigos de se ter um infarto. Não sou médico, porém tenho bom senso, e recomendo àqueles que pensam em seguir tal dieta farmacológica que consultem antes um gastroenterologista. Se o usuário da dieta da aspirina diária possuir algum tipo de úlcera ou gastrite crônica, na verdade vai cometer suicídio. Com certeza não irá morrer de infarto, porque não vai dar tempo…

Para todas as contradições da pesquisa haveria necessidade de um livro específico, porque não são poucas as controvérsias de alimentos e substâncias que são acusadas de responsabilidade e, ou, causadoras de alguns problemas de saúde, enquanto outras são levadas à condição de salvadoras da pátria. A impressão que transmite é que, conforme o interesse específico de algum grupo industrial alimentício ou farmacêutico, testes e pesquisas são feitos e a divulgação parcial dos resultados nem sempre pode ser chamada de isenta, ou neutra e séria.
O que nos interessa, porém, são as carnes vermelhas, colocadas no “tiro ao alvo” dos cientistas, e que seriam as principais causas do mal do século XX, e também do início desse século XXI, que é o colesterol elevado. As gorduras contidas nas carnes vermelhas, conforme o FDA, são também responsáveis pela generalizada obesidade dos americanos, mas eles “esquecem” convenientemente, os maus hábitos do fast food. A mais nova conclusão dos cientistas americanos é de que carnes vermelhas, provenientes de animais estabulados, criados em confinamentos, seriam efetivamente mais prejudicial ao consumo humano se comparada com o consumo de carne de gado criado a pasto.
Como proposta para ações futuras de marketing dos pecuaristas, este autor sugere aos produtores de carnes em geral que procedam a intensos, profundos e completos estudos científicos, liderados por diversas instituições de pesquisas, universidades inclusas, brasileiras e internacionais, e que de preferência trabalhem isoladas, para determinar, efetivamente, o quanto de mau e de bom traz à saúde humana o consumo de carnes vermelhas, manteiga, ovos, bacon etc., e comparados a alimentos industrializados, se possível. Será o maior e melhor investimento em termos de marketing, pois muitas verdades virão à tona.
Leva algum tempo e custa caro, efetivamente muito caro, mas vale à pena. Façam orçamentos antes para tomar as decisões. Talvez contratar um médico ou cientista aposentado de renome, com experiência e visão, para condensar e sintetizar toda a literatura científica existente seja um primeiro passo, mas a briga lá dentro da arena do “inimigo” seria fundamental para corrigir as questões apontadas. Só o trabalho de um médico poderia demorar uns cinco anos, e os estudos e as pesquisas de universidades e outros órgãos de pesquisa de 10 a até 20 anos. Como afirmei acima, leva tempo e custa caro.

Em toda a Europa, em especial na Itália e França, Portugal e Espanha, consomem-se manteigas, carnes vermelhas e embutidos de carne de porco como salame, copa, presunto, queijos amarelos como parmesão e provolone, todos eles considerados perigosos pela pesquisa e ciência médica americana, mas o colesterol elevado entre os europeus não é um problema generalizado na saúde pública, pelo contrário, a longevidade dos italianos, alemães e ingleses demonstra o contrário. A estatística, que é a mãe de todas as ciências, comprova isso. Existem as chamadas doenças mediterrânicas, mas são de outra ordem e natureza, referem-se à etnia e não à alimentação. Os alemães e belgas consomem salsichas no almoço e jantar, e a população goza de boa saúde, apesar do uso freqüente da carne de porco. Os espanhóis consomem a paeja como nós brasileiros consumimos a feijoada, e nem por isso a população tem problemas endêmicos ou epidêmicos com o colesterol. Percebe-se que há um imbróglio enorme e muita mistificação, meias verdades, informações distorcidas que induzem e influenciam a todos os consumidores de alimentos nas Américas a um comportamento radical de proibições e liberdades no que consumir, misturando culpas judaico-cristãs no ato de se alimentar.
A todo esse pacote de informações se junta o culto ao corpo e ao que se acredita que engorda, como as massas e os doces. Novamente os franceses e italianos mostram sua média de corpos saudáveis, longevos, em alguns casos até mesmo magros, apesar de consumirem todos os alimentos hoje restritos nas Américas. Talvez a sabedoria dos europeus esteja na diversificação dos alimentos, no consumo moderado de comer e beber um pouco de tudo, com pouca ou nenhuma fritura, na chamada “salada colorida”, no enorme consumo de frutas, demonstrando e comprovando que a melhor farmácia preventiva para o ser humano seria a quitanda do bairro.
Enquanto isso, os EUA e os resultados divulgados de pesquisas científicas ditam regras ao mundo, e nós brasileiros seguimos como autômatos o que dizem os americanos, apesar do alto índice de colesterol detectado na população americana, e que hoje em dia alarmam também os médicos brasileiros, porque aqui temos também os altos índices de peso acima do recomendado, e um alto índice de colesterol na média da população, inclusive entre jovens.
(Já os hermanos argentinos preferem nos chamar de “macaquitos”. Fico roxo de raiva nessas horas, mas tem momentos em que devemos admitir que os nossos vizinhos têm um pouco de razão. A ira só ameniza quando ganhamos deles, já na prorrogação…).

Tudo porque eles são glutões, consomem de forma exacerbada hambúrgueres com pão, batata frita, ovo frito, chickens fritos, bacon frito, tudo acompanhado de ket chup (alimento industrializado) e com muita Coca-Cola ou Pepsi-Cola, cujas fórmulas ninguém sabe o que contém, além do açúcar em grande quantidade. Não se esqueçam, ainda, das guloseimas industrializadas, empacotadas, salgadas ou doces, cheias de gorduras trans, como os cebolitos, amendoins japoneses, batatinhas, baconzitos etc.

Nesse tatame, os produtores de açúcar brigam para provar que não são os vilões, e a indústria de refrigerantes, como resposta, lançou os diets e os lights, e tem muitos anos que o circo vai em frente… E os órgãos de pesquisas e universidades americanos aprovam e criticam um pouco de tudo, e vez por outra revêem seus conceitos. Não bastassem os problemas de que são acusadas as carnes vermelhas, de causar o aumento do colesterol, depois de tudo culpam também as carnes vermelhas como as causadoras da obesidade dos mais de 70% da população americana, ou culpam as massas italianas, feitas com trigo americano e canadense. Em verdade, por trás dessas questões existe muito interesse não confessado e escuso de indústrias de todos os tipos, seja a farmacêutica, seja dos médicos que são obrigados a apontar culpados e atiram num inimigo fragilizado pelas críticas banalizadas, seja das indústrias de alimentos processados.
A imagem existente em algumas parcelas da população brasileira, em especial os vegetarianos e as pessoas idosas, é de que o consumo das carnes vermelhas causa mais mal do que benefício. Com toda a certeza um bife frito, um ovo ou bacon frito, ou um hambúrguer frito, contêm muito mais calorias e gorduras polinsaturadas do que uma carne vermelha grelhada.
Outra linha de pesquisa a ser perseguida pelos produtores de carnes é a descoberta relativamente recente de cardiologistas brasileiros, que estão entre os mais respeitados do mundo, de que o infarto do miocárdio tem como causa uma espécie de bactéria, presentes em quase todos os infartados, e, por essa razão, não seriam as gorduras polinsaturadas que entupiriam as veias e coronárias. Seriam bactérias que se alimentam dessas gorduras, e a presença daquelas é que causaria o entupimento das coronárias. Não mudaria a necessidade dos cuidados com as gorduras e com o colesterol, mas demonstraria que há outras causas e também outras formas de combater e controlar o mal dos séculos XX e XXI.

Por si só, isso já seria uma evolução, a par de se estabelecer com verdades científicas o que é que efetivamente causa o aumento do colesterol, se o consumo de carnes vermelhas ou o excesso de frituras, se o consumo exagerado de sal e de diversos produtos industrializados ou a ausência de alimentos e práticas que ajudam a reduzir o excesso de gorduras no organismo, como o vinho, o azeite de oliva extravirgem, as frutas cítricas e os exercícios físicos. Somente um estudo profundo com base científica poderá equilibrar a situação sobre as verdades e mentiras acerca desse ainda polêmico assunto.

Depois disso é só divulgar os resultados das pesquisas e, com toda a certeza, o consumo médio per capita mundial de carne vermelha voltará a crescer. Ignorar o assunto é fugir da briga, é dar ganho de causa ao inimigo sem nenhuma luta, e é pura covardia. Se houver omissão no futuro, como houve até hoje, o consumo per capita poderá cair, não tenhamos dúvidas, pois os vegetarianos demonstram uma invejável capacidade de encontrar e motivar seguidores de suas idéias e comportamentos.
O Brasil já assumiu a liderança mundial nas exportações de carnes, e precisa, urgente, assumir a liderança nessa questão. A postura de líder implica enfrentar o inimigo e não praticar a passividade. No caso das carnes, a questão da informação é vital em termos de futuro.
Outras carnes, pelo menos no Brasil, lutam para conquistar seus espaços: ovinos, caprinos, coelhos, mas não conseguem decolar. A avestruz, no final dos anos noventa, iniciou uma agressiva campanha, dando bons exemplos no marketing e do que se pode fazer. Faltavam ainda criadores suficientes para abastecer o mercado. Não tenho acompanhado de perto a criação de avestruz, porém ainda não vejo criadores reclamando pelos corredores oficiais ou pela imprensa. Talvez porque a avestruz seja, como os ovinos, uma importante fábrica de outras matérias-primas, pois, além da carne, comercializam-se as penas e o couro, com inúmeras aplicações em acessórios como cintos, sapatos, bolsas, pastas, malas e carteiras.
Nas carnes de ovinos, há décadas, vemos uma sucessão de erros mercadológicos, e parece que sempre são imitados pelos caprinos. Por essa razão, não se instaurou entre os consumidores brasileiros o hábito de consumir essas deliciosas carnes. No Rio Grande do Sul, em algumas cidades do interior, nas fronteiras com o Uruguai e Argentina, ou principalmente em fazendas, consome-se carne ovina de excelente qualidade, carne de borrego dente de leite, ou capão. É uma carne saborosíssima e com baixo índice de gorduras.
Mesmo por lá, volta e meia, depara-se com a carne de ovelha velha, que já deu lã em mais de uma dúzia de tosquias, e foi para o frigorífico porque envelheceu. Então sua carne seca, fibrosa e dura castiga seus degustadores e espanta os consumidores. Da mesma forma, os caprinos não conseguem fazer mercado nas carnes, porque preferem a produção de leite.
No caso dos caprinos, assim como nos ovinos, as carnes que chegam ao mercado são de animais envelhecidos. Os consumidores urbanos modernos não sabem como preparar uma saborosa perna de cabrito, prática que apenas as vovós italianas desenvolviam antigamente. Como são pratos da chamada culinária artesanal, que exige criatividade, são cheios de truques no seu preparo, e demorados cuidados para sua conclusão, não atraem os jovens consumidores, nem mesmo em restaurantes.

Na cidade de São Paulo, um centro culinário reconhecido internacionalmente não há mais que três ou quatro restaurantes (todos cantinas italianas) que prepara e serve uma perna de cabrito com qualidade. Dependendo do restaurante, é um prato que tem de ser encomendado de véspera, com reserva de mesa. Se não há produto de qualidade, não há consumidores, e se estes não se interessam em comprar, nada lhes é oferecido. É um círculo vicioso perverso, e a burrice e teimosia, além da passividade, dos criadores de caprinos, ovinos, e também coelhos, se eternizam na inexistência de mercado. Não se explora, entre os consumidores, o que estes mais desejam, que são maiores opções de consumo, pois hoje o consumidor brasileiro está limitado a consumir carne de boi, frango, porco, frutos do mar e alguns raros peixes de rios brasileiros.

Recorro novamente ao exemplo da velha Europa, onde se consome todo tipo de carne. Cardápios de restaurantes, nos açougues e supermercados, incluem carne de coelho, vitela (consumo insignificante no Brasil), carne ovina e de caprinos, carne de cavalo, rãs, afora faisão, pato e animais silvestres etc.
Só precisa um pouco de coragem e investimento, amigos criadores de ovinos e caprinos, de bom senso e honestidade na oferta de carnes alternativas. O consumidor sonha em diversificar. Se houver oferta de produtos de boa qualidade vai haver consumo, não tenham dúvidas. O que não se deve fazer é largar a imagem dos caprinos nas mãos dos políticos. Estes, em época de campanha, consomem em festas e nas casas de eleitores nordestinos, a famosa iguaria do bucho de bode, mais conhecida de ouvir falar do que de consumir.
Qualquer indisposição a partir daí culpam a carne caprina, e fazem troça com a carne de bode, mal cheirosa por conta dos hormônios naturais do animal, garantindo para possíveis consumidores urbanos um afastamento cada vez mais definitivo da condição de futuro consumidor. Permanece o anti-marketing e fica a fama da carne de bode, mal cheirosa e indigesta.

* Richard Jakubaszko, jornalista, publicitário e escritor. Editor da revista DBO Agrotecnologia, e também do blog http://richardjakubaszko.blogspot.com É ainda autor dos livros “Marketing rural: como se comunicar com o homem que fala com Deus” e também do “Marketing da Terra”, ambos pela Editora UFV da Universidade Federal de Viçosa, MG. O presente artigo é um capítulo resumido e adaptado do livro Marketing da Terra, que trata sobre como agregar valor aos produtos da terra através do marketing.
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