Modelo de atendimento… Modelo?

No processo de construção da proposta de Reforma Sanitária Brasileira do SUS, com a transferência da gestão para a esfera municipal não foi levado em consideração às questões que levaram à falência do atendimento a população usuária do SUS.

Dois foram os fatores, no nosso entendimento, determinantes para essa falência. O primeiro deles foi a ruptura da relação médico-paciente promovida pelo “sistema”. O paciente deixou de ter a referência do seu médico para transformar-se em (im) paciente do sistema. O segurado deixou de ter o direito de escolher o seu médico e o seu local de atendimento. A antiga sistemática de atendimento em consultórios estava ficando “onerosa demais” para o sistema e era necessário dar um basta.

Aqui entra em cena o segundo fator determinante para a falência desse sistema, o aviltamento do valor pago pela consulta, não foi necessária a emissão de nenhuma portaria acabando com o regime de atendimento nos consultórios, simplesmente tornaram-no inviável pelo valor pago pelas consultas.

Um segmento muito grande da população se utilizava desse sistema. Os postos de saúde eram ociosos em razão disso e, de novo fizeram uma leitura equivocada dessa ociosidade. “Se os postos estão ociosos vamos ocupá-los com a demanda de pessoas que buscam o atendimento nos consultórios”. Ledo engano cara-pálidas!

Desconheceram uma outra realidade que é a acomodação do atendimento feito por funcionário público que não está submetido a um regime de meritocracia. No serviço público quem trabalha bem e quem não trabalha bem recebe a mesma coisa.

No sistema de atendimento nos consultórios o paciente trocava de médico se não estivesse satisfeito. O médico tinha que mostrar desempenho e resolução. É uma lei simples de mercado.

Apostaram nos postos, que nunca tiveram resolubilidade, e acabaram por trazer conflagração a um outro segmento que funcionava razoavelmente, já meio estrangulado, mas ainda com poder de resolução, as Emergências.

A população vendo que não havia respostas nos postos de saúde passou a buscar o atendimento nas emergências para os seus pequenos agravos de saúde. Passaram a buscar cada vez mais as emergências tornando-as um local de conflagração comparáveis aos hospitais de campanha, tamanho é o amontoamento de pacientes em suas salas de observação. Hospital que tem serviço de emergência tem outro hospital dentro de sua área. Não há continuidade do atendimento porque o regime de atendimento é o de plantões, os hospitais com seus setores de internações não dão conta da demanda que aporta às emergências e fica-se amontoando pacientes nas emergências.

Eureca! Fazem uma nova leitura, “para resolvermos o problema das emergências precisamos normatizar o Pré-hospitalar, vamos implantar o sistema de SAMUS como fizeram os franceses”.

Ótimo, vai uma missão brasileira à França para conhecer o sistema, voltam com uma visão clara de como funciona, acreditam que vai ser difícil fazerem a tal implantação, mas entendem que possa ser possível. O grupo de trabalho elabora uma norma e o sistema é implantado através de portaria ministerial que regulamentou o funcionamento.

O que aconteceu? Solução? Não, mais caos.

O sistema que era para ser um triador de casos que aportavam as emergências transformou-se em um verdadeiro serviço de remoções cinco estrelas de pacientes fora de possibilidade terapêutica que antes seguiam a história natural de suas doenças que evoluíam para óbitos assistidos e confortados pelos familiares, para serem pacientes a ocuparem leitos nas emergências de pessoas com casos agudos com possibilidade de recuperação. O infarto agudo, o acidente vascular cerebral, o quadro de abdômen agudo, a pneumonia grave, a colecistite aguda, e outros ficam na dependência de vagas.

A análise das instituições hospitalares nos permite discorrer sobre seu comportamento evolutivo, nas últimas décadas. Ao observarmos o que tem acontecido com as unidades prestadoras de serviços assistenciais de saúde nestes 100 anos, veremos que seus grandes avanços estão centrados numa forte incorporação de tecnologia, numa efetiva qualificação dos recursos humanos que neles trabalham, numa visível melhora de suas arquiteturas, mas sem dúvida ainda continuam sendo as mesmas casas estruturadas para receber pessoas doentes (ou não), tal como vem ocorrendo desde o século dezoito no Hotel Dieu em Paris.

A organização dos sistemas de saúde do mundo ocidental, sua vinculação e dependência vital da doença, as pressões pela incorporação dos constantes avanços tecnológicos nas áreas de diagnóstico e tratamento, impulsionados por um modelo de saúde que mercantiliza a doença e a assistência ao indivíduo têm, sem dúvida, feito com que estas instituições estejam mais comprometidas com sua própria sobrevivência imediata e cada vez mais afastadas de seus efetivos compromissos com a comunidade.

São desprezados todos os conhecimentos acumulados ao longo dos anos quanto aos perfis de comportamento das doenças de Terceira Idade. Nossas instituições hospitalares não têm considerado tais conhecimentos no sentido de orientar sua organização, não têm incorporado em suas estratégias de atuação, ações de cunho preventivo e promocional de saúde nestas patologias prevalecentes em sua clientela.

Exemplificando, em um pequeno Hospital localizado em uma comunidade do litoral norte gaúcho, ficou claramente identificado, com uma simples leitura de relatório de internações na área de obstetrícia, um elevado índice de partos em adolescentes. E o que foi feito em relação a isto. Nada. Esse dado estatístico sendo analisado por alguém com um mínimo de visão social ou sanitária apontaria para uma necessidade de deflagrar uma ação na comunidade de esclarecimento e de educação para as jovens dessa comunidade sobre a prática do sexo seguro e de métodos anticoncepcionais. Seguramente são gestações indesejadas, na grande maioria.

Exemplos como o acima relatado, demonstram como tem sido total o descompromisso com a busca do conhecimento tecnicamente organizado, no sentido de saber quem é a clientela de um determinado hospital, de onde ela vem, quais são as patologias que mais a afetam, para que de posse destas informações se possam planejar e organizar uma instituição que atenda as expectativas de sua clientela. Não temos tido experiências de organizações hospitalares voltadas, ou minimamente comprometidas com os perfis epidemiológicos de sua comunidade, desenvolvendo ações e pautando sua organização atrelada a estes indicadores, incorporando ações promocionais educativas que venham atender efetivamente as necessidades de toda uma coletividade.

Se bem observarmos, o modelo de organização interna dos hospitais e sua vinculação social ver-se-iam que elas têm mantido pouca aproximação quanto ao seu aspecto evolutivo ao longo dos tempos. Não temeríamos em afirmar que a evolução da tecnologia hospitalar tem se dado na mesma proporção de seu afastamento das reais necessidades sociais.

Concluindo, nas grandes instituições as pessoas com essa visão de trabalho e essa consciência social têm sido marginalizadas nas ações desenvolvidas pelos hospitais desprezando-se toda a experiência de vida e de trabalho que acumularam ao longo dos anos. É como se nunca tivessem existido nessas instituições.


PIRES, Rogério Dalfollo – “O Hospital e a Comunidade”, Diretor Superintendente do Grupo Hospitalar Conceição, cópia xerográfica, 1996.


Marcelo Mourão
Médico Cardiologista

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2 Responses to Modelo de atendimento… Modelo?

  1. Sandra M.S.Evers disse:

    Passaram-se 14 anos e nada mudou. Ou melhor, a situação está pior e a dita organização interna dos hospitais, em especial os públicos, desprezam a experiência de vida e de trabalho dos seus profissionais e valorizam os cabos eleitorais, que chegam sem preparo para fazerem parte das administrações dos hospitais.
    Quando teremos um sistema de saúde socialmente correto? Sabemos que não é problema de dinheiro e temos profissionais na área da saúde altamente qualificados.
    Falta vontade política?
    Gostaria muito de obter respostas e soluções.

  2. […] post by cardiologistaruipeixoto Share and Enjoy: These icons link to social bookmarking sites where readers can share and […]

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