A hora de se despedir

Em 1981, na inauguração da Sala Carlos Nobre no Restaurante Copacabana, nos deliciamos escutando ele cantar uma musica que Lupicínio Rodrigues fez para ele: Zé ponte.
Na musica Lupi dizia que, somente Nobre, com sua voz, com o seu humor, com todo o seu sentimento, poderia cantá-la. Nobre recebeu uma carta de Lupi, nunca abriu. Ela foi escrita 15 dias antes da morte de Lupicínio. Talvez seja este sentimento de perda irreversível, irreparável, que Nobre tinha sobre as pessoas, que fez com que nunca abrisse esta carta. Em seu último livro “Divisadero” o escritor Michael Ondaatje, autor do premiado “Paciente Inglês”, Man Booker Prize de 1992 e Oscar do melhor filme em 1997, relata que a música “Um favor” de Lupicinio Rodrigues foi o que começou essencialmente este seu último romance. Ele lhe disse que havia uma música que  não mais tocava. Era sobre uma mulher que se levantara da cama no meio da noite e o deixara. Ele encontrara provas de sua existência nas vilas ao norte, mas ela já se fora quando o boato de sua presença o alcançava. Seus dedos ásperos arrancavam o coração do violão. “Se algum de vocês a vir em suas jornadas – gritem-me, assobiem, ele cantava, e tornou-se hábito da platéia gritar e assobiar em resposta a estes versos. Ele conhecia a própria reputação de timidez, mas agora consentia em revelar algo de suas cicatrizes aos amigos”. Escutei esta música em um bar na subida da Santo Antonio, e as pessoas estalavam seus dedos enquanto Lupicinio cantava. Entendi a simbologia deste gesto, através de um homem que nasceu no Sri Lanka e, após crescer na Inglaterra, radicou-se no Canadá. Iniciou sua vida literária como poeta.
Cartas não lidas , músicas jamais tocadas, luto, o luto de preto fechado das minhas tias portuguesas, são sentimentos mais delicados da falta que as pessoas fazem.

A ciência com mapeamento cerebral, tenta explicar, que o nosso sentimento de perdas afetivas estariam ligadas a imagens gravadas no cérebro. O que sentimos é falta da presença, momentos de alegria e prazer que nos marcaram para sempre as pessoas que nos deixaram.
Convivi com o Jornalista Candido Norberto no Hospital Conceição, uma doce figura falando sobre os males da saúde pública, mais respeitoso e cuidadoso como ninguém a falar de assunto tão controverso. Nos ajudou muito. Sua fama de grande jornalista e sua cultura. A população precisava ser informada que éramos o último reduto das classes menos favorecidas (termo que se usava na época). Mereceu todas as homenagens. Hora de se despedir, afeto que se encerra, quando falávamos sobre a morte. Nunca gostou. Não era uma boa reportagem.

Dr. Rui Peixoto
Médico Cardiologista

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2 Responses to A hora de se despedir

  1. cardiologistaruipeixoto disse:

    Maria Laura, o nosso querido e brilhante jornalista Jorge Olavo de Carvalho Leite, foi e será sempre o nosso Assessor de Imprensa. Pensei em revisar o texto citando o Jorge e enviar para o Correio do Povo para publicação. Estamos sintonizados. Um carinho. Rui Peixoto.

  2. maria laura c bicca disse:

    Dr.Rui Chego a este texto por mera causualidade (??)
    pesquisando o jornalista com nome proximo que está
    propondo uma atenção para os brasileiros que vivem no exterior. Mas,alegro-me em encontra-lo via email,com mais tempo do que nos cruzamos no ambulatório do HNSC.
    Bonito e sensível texto.Curiosa,gostaria mais de saber das historias,conceitos,presença do jornalista
    Candido Norberto no GHC.Deve ter sido na época do Jorge Olavo.Abraços Mlaura Assistente Social

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