Medicina defensiva e as chuvas de março

Se há 320 anos, como escreveu o Dr. Simão Pinheiro Morão, havia queixas contra os médicos de Recife, hoje elas evoluíram para a revolta e a agressão moral e física. Ademais, a última década tem se caracterizado por crescentes demandas jurídicas contra médicos. São muitos os fatores que contribuem para esta insustentável situação. Entre os primeiros, sem dúvida, está a propaganda enganosa sobre os direitos da população e os recursos aportados pelo governo na área da saúde. Pela Constituição em vigor, o acesso à saúde é um direito de todos e dever do Estado, o que é elogiável. Mas, na prática, inviável ou, no mínimo, irritantemente demorado. Natural que o sentimento de frustração do usuário entre o prometido e o efetivamente oferecido dispare mecanismos agressivos.

Como o Estado é um ser difuso e seus gestores estão distantes, a figura mais próxima, concreta, do indivíduo fraudado é a do médico. Outro componente externo a considerar no aumento dos processos contra os médicos é a facilidade com que tais ações são propostas, o que decorre da própria Carta Magna, que assegura amplo acesso à justiça, também direito inatacável, mas que, na prática, gera abusos e injustiças flagrantes. Avaliação realizada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), em 1997, identifica as carências na formação dos médicos, apontando urgência na sua melhor preparação profissional. Nunca a taxa de mortalidade foi tão baixa como agora e, contraditoriamente, ao invés de subir, também decresceu a confiabilidade no médico. Acontece que, se a assertiva é verdadeira, a conclusão não deixa de ser parcialmente falsa.

O nível atual do conhecimento médico não permite o diagnóstico especulativo, nem a onipotência incompatível com a boa prática médica. O sujeito da relação médico-paciente é o paciente e não o médico. Cabe ao médico, e somente a ele, restabelecer sua relação de confiança, substituindo o contato de superfície que hoje vigora por um diálogo de profundidade. Como diz o trecho da conferência do Dr. Moacir Danilo Rodrigues, sobre medicina defensiva:

Quando o médico resgatar-se ao individualismo a que consciente ou inconscientemente se entregou; quando abandonar a onipotência para (re)conquistar seu paciente; quando compreender a dimensão exata do seu poder… Constatará que a crise passou, com seus processos e ameaças e que a preocupação com a medicina defensiva igualmente chegou ao fim, como também passam as chuvas de março.

Fomos a conferência atrás de um capítulo que faltava ao livro sobre o Risco da Prática Médica. Apesar dos sinais evidentes de sua enfermidade, falou mais na esperança, alegria, e menos na dor, escondida em alguns dos seus dizeres. Nos emocionou muito. Terminou, a conferência citando Vitor Hugo:

Há uma coisa mais poderosa que todos os exércitos: é uma idéia cujo tempo tenha chegado.

Não mudamos, apesar da linha editorial, o título do seu capítulo: Medicina defensiva e as chuvas de março. Um artigo científico com título de crônica.

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