Uma Casa Portuguesa

Jornal Zero Hora

No farol de Santa Marta, Laguna, a tia Maria Peixoto foi a única portuguesa que não conheci vestida de preto. Luto fechado. Morreu de câncer de mama, mas me ensinou tudo sobre o luto da mulher portuguesa. Antes de sua morte me confidenciou, com muito carinho, que algumas eram chamadas de cabritas, porque pulavam pelas pedras do farol em busca de novos amores.

Minha avó, Ana Leopoldina, agente dos Correios e Telégrafos na vila São Sebastião, no caminho para o farol, foi uma das portuguesas da minha adolescência, que perdeu todo o fascínio, a liderança e arrogância também, após a morte do meu avô.

Falou até o fim, naquele português de cabelo escovinha que colocava vinho tinto na sopa e que, quando saía da Coobrasil (cais do porto) bebia um trago e deixava pago mais três para os filhos que vinham atrás. Não se podia beber ou fumar em público, na sua frente.

Mais tarde, como estudante de medicina, comendo marisco da pedra, fervido em uma lata de querosene, com vinho tinto, ele me ofereceu um cigarro Urca e aconselhou a procurar uns patrícios que me indicassem para trabalhar no Hospital Beneficência Portuguesa.

Faz muito tempo que tudo isso aconteceu. Era inverno de 1965.

Tenho certeza que a colônia sabe muito bem o que é luto, vinho na sopa, um bom fado (a tia Margarida dançava) perdas e saudades.

O Hospital Beneficência Portuguesa vem sofrendo nos últimos anos crises político-administrativas importantes.
Recentemente, o hospital foi descredenciado pela CIMS.  São os conselhos populares, principalmente na área de
saúde, atuando no controle dos gastos públicos. No episódio de descredenciamento, de um lado a Sociedade Beneficência, não se interessando por manter o hospital, do outro o conselho popular exigindo um melhor atendimento às classes menos favorecidas. No meio, uma comunidade de 500 funcionários e médicos e 8.000 pacientes mensais sem atendimento. E no centro de tudo, ela de preto, a Beneficência Portuguesa, onde quase a maioria de Porto Alegre ou nasceu ou lá foi operada pelos drs. Marsiaj.

Aos que lembram dos Stafilococcus, eles, nos tempos de crise, foram procurar outra freguesia.

Na realidade, esta portuguesa de preto, cheia de perdas, às vezes se comporta como uma antiga senhora. Outro dia, um velho médico pediu para levá-lo na Unidade Seis que está desativada. Disse que ela já não era mais a mesma por falta de cuidado da comunidade. Em outras ocasiões, é uma jovem, pois recentemente um estagiário da cirurgia geral confessou que andava de amores pela Benefa. Falou com ternura e confiança na jovem Beneficência Portuguesa. Da Beneficência com tomografia computadorizada, com uma Unidade de Neurocirurgia, com um ambulatório de múltiplas especialidades, centro de estudos e um corpo de funcionários misto de jovens e antigos. Esses
que conheceram seus momentos de glória.  Mas há os momentos de glória atuais, um hospital pobre, mas voltado
para atendimento das classes menos favorecidas, sendo o último reduto das vilas Farrapos, Conceição e Divinéia.

Um hospital que atende na grande maioria pacientes em fase terminal, quase sempre rejeitados por outros hospitais, porque não geram recursos financeiros. Um hospital que mantém um grande número de pacientes rejeitados pela própria família por representarem um problema econômico em suas casas.  Um hospital que devido à dificuldade de material médico moderno, em algumas áreas, tem no seu corpo clínico a dedicação e a consciência do diagnóstico clínico bem feito. Um hospital que está rodeado pela Santa Casa, Hospital Presidente Vargas, Fêmina, Pronto-Socorro e tem sua utilidade freqüentemente posta em dúvida. Um hospital que tem sobrevivido com, muita dignidade, atendendo em torno de 10.000 pacientes por mês.

A Beneficência está de preto, abandonada pelos responsáveis pela saúde do povo, pela comunidade lusa, mas principalmente, por aqueles que um dia, de uma maneira ou de outra, a procuraram para aliviar suas  dores e suas enfermidades. Além do auxilio financeiro e de material médico, ela necessita de muito carinho e solidariedade. Mas, como toda portuguesa, principalmente aquelas da minha infância, ela continuará com a sua função social de atender aos menos favorecidos, mas exercendo uma medicina de vanguarda, comunitária, no sentido amplo e humanístico da palavra.

Mas ela não vai perder o seu jeito histórico de uma casa portuguesa.

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One Response to Uma Casa Portuguesa

  1. […] que tem sobrevivido com, muita dignidade, atendendo em torno de 10.000 … fique por dentro clique aqui. Fonte: […]

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