Os limites do tratamento médico

Em maio de 1991, o doutor John Flaschen publicou no Washington Post um artigo com o título “Escolhendo morte ou mamba na UTI”. “Mamba”  é o nome de uma cobra cujo veneno conduz a uma morte lenta e cercada de muito sofrimento. A história criada por Flaschen refere-se a três missionários que foram aprisionados por uma tribo de canibais. Nã última reunião com o cacique, foi lhes oferecido escolher entre morte e mamba. Os dois primeiros, por ignorarem o que significa mamba, escolheram na como opção. O terceiro missionário, depois de observar que a chegada da morte de seus companheiros foi precedida por horas de intermináveis sofrimentos, implorou ao chefe indígena que lhe permitisse a morte rápida. O cacique porém respondeu-lhe: “Morte sim, porém antes você terá um pouquinho de mamba”.

O autor faz um paralelo com o padecimento de muitos pacientes que agonizam em nossas bem equipadas unidades de terapia intensiva. A pergunta explícita que é formulada a todos nós, médicos, é se não estamos impondo sempre um pouco de mamba a nossos pacientes terminais.

A ética médica passou da discussão à aceitação dos direitos do paciente na relação médico/paciente, até então, uma atitude paternalista para a relação co-participativa de decisões.

Na luta pela morte com dignidade, exige-se um equilíbrio nessa atitude. Se por um lado contempla um maior envolvimento do paciente no seu próprio cuidado de saúde, por outro lado não se deve deixar sempre com o paciente a responsabilidade de decidir o que é certo.

A morte com dignidade, quando medidas extraordinárias possam ser dispensadas, conforme desejo do paciente, ou do senso comum, e o compromisso com a amenização efetiva do sofrimento, são as medidas admissíveis ao pensamento médico. Outras atitudes, que facilitam ou ocasionam a morte fogem do terreno de atuação do médico.

O risco na busca da dignidade na qualidade e na quantidade de vida na sociedade atual, guiada pelo utilitarismo, é o de considerar como de menor valor a vida de pessoas idosas. Não é raro incorporarmos este preconceito, em nossas tomadas de decisões.

Paul Claudel, poeta francês, ao completar 80 anos, em resposta a versos pessimistas de Shakespeare sobre a qualidade de vida em idosos, assim se expressou: “Oitenta anos passados. Não tenho mais, vista, nem ouvido, nem dentes, nem
pernas, nem fôlego, e, uma vez feitas as contas, a gente pode muito bem passar sem eles”.

Esta resposta é o que pacientes terminais, familiares e médicos buscam: a qualidade de vida como valor hierárquico superior à quantídade de vida.

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