O beijo do revolucionário

Na noite de 28 de setembro de 1908, Astrogildo Pereira, 17 anos, compareceu a um encontro não combinado. Seu destino era uma casa, no Cosme Velho. Não conhecia pessoalmente o dono, não conhecia sua família e não tinham amigos em comum. Sabia apenas de seu grave estado de saúde. Pediu para ver o dono da casa, enfermo no quarto. Astrogildo ajoelhou-se e beijou-lhe a mão. Logo em seguida despediu-se de todos e saiu.

Machado de Assis morreria horas depois.

Anarquista, comunista, historiador, fundador e primeiro secretário do PCB, foi o principal formulador do que seria uma política cultural de esquerda, anti-dogmática e libertária. Tentou durante toda a sua vida conciliar um projeto de transformação social com a democratização da cultura.

Da reflexão política à crítica literária, mostrou que os manuscritos econômicos-filosóficos de Marx, eram uma das descrições mais completas das relações humanas :

“Se se pressupõe o homem como homem e sua relação com o mundo como uma relação humana, só se pode trocar amor por amor, confiança por confiança etc. Se se quiser gozar da arte deve-se ser um homem artisticamente educado; se se quiser exercer influência sobre outro homem, deve-se ser um homem que atue sobre os outros de modo realmente estimulante e- incitante. Cada uma das relações com o homem- e com a natureza deve ser uma exteriorização determinada como vida individual afetiva que corresponda com o objeto da vontade.”

Com seus manuscritos e livros marxistas embaixo do braço, converteu o Capitão do Exército Luis Carlos Prestes, de dirigente militar em dirigente comunista.

A democratização da cultura era sua esperança.

Hoje, a esperança está na possibilidade de uma sociedade mais justa, mais igualitária, que possa garantir mais liberdade e criar expectativa de felicidade. No entanto, só se mobiliza a sociedade despertando esperança, esperança que não pode ser percebida objetivamente. Pode ser fruto da fé, da utopia, de saber que algo pode ser feito, que a realidade não é imutável.

A democratização da cultura, seria um investimento organizado pela sociedade e pelo Estado, na formação intelectual, moral e estética de todas as pessoas, em condições iguais e democráticas.

Nada a ver com “eventos”, nem “patrocínios”, e sim com uma política de radicalidade democrática como parte do processo revolucionário.

Preso em1964, morreu meses depois. No mesmo ano era inaugurada primeira rede de televisão. Um sistema industrial de comunicação se instalava no Brasil. E Escolas de Comunicação foram criadas para acompanhar esse novo processo cultural em que o país iniciava, e no qual se pudesse refletir em cursos e teses acadêmicas, entre muitas outras coisas, as origens de uma política cultural. Apareceria a luta de Astrogildo, um comunista que acreditava nos afetos pessoais , amizade e amor, por que são concretos e decisivos.

Dr. Rui Peixoto
Médico cardiologista do GHC

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