O voto como um ato de amor

Em seu último depoimento, J. P. Sartre falou muito sobre o voto, democracia, partidos políticos, velhice, esperança e desesperança. Para ele, antigamente, o voto não era um ato particular dentro da vida de cada um. Na realidade, era o ato pelo qual se fazia política, para a qual se existia de alguma maneira. O voto se modificou e é por esse motivo que estamos em uma posição de retrocesso.

O fato é que cada homem, cada eleitor, vive em um meio, um grupo, com outros homens que o condicionam, ao menos em parte, no plano das idéias e ou teorias gerais. Há uma relação original dos homens entre si antes do voto – e sem ela à voto não seria possível. Os homens que vão votar são homens do mesmo bairro, da mesma  família com idéias em comum há muito tempo; e o voto não é senão uma expressão disso. É uma relação de fraternidade e a familiar é a primeira em relação a todas as outras.

A democracia, na sua opinião, não era apenas uma forma política de poder, mas uma vida, uma forma de vida. No entanto, é necessário saber se os homens vivem em democracia e democraticamente. Vivendo democraticamente, o voto é a manifestação mais plena de uma vontade individual ou coletiva na ídealização de uma sociedade mais feliz.

Há 12 anos, fui candidato a deputado estadual pelo ex-Partido Comunista em uma frente democrática. Apesar dos votos recebidos, o quociente para ser eleito não foi alcançado; e os meus votos serviram para eleger um outro candidato, que não tinha nenhum envolvimento com o bairro que tinha me escolhido.

Trabalhando em um hospital público, representava a esperança de um melhor atendimento de saúde. Os votos foram fraternos. Recebi de uma moradora do bairro a seguinte declaração: “0 primeiro voto do meu filho foi seu, como o de toda minha família”. Tenho orgulho dos meus votos e quando atendo os pacientes do bairro Sarandi, zona norte de Porto Alegre, fico encantado. Pergunto pela sua família, sua rua e seu bairro, forma simbólica de agradecer os votos recebidos.

Abandonei os partidos políticos e tenho comigo dois ensinamentos de Sartre bem presentes: o partido é a morte da esquerda. Os eleitores de esquerda votam nos partidos de esquerda, mas já perderam a esperança. Não acreditam que votar corresponda a uma intenção superior. Outrora, votar nos comunistas era um ato considerado revolucionário. Atualmente, pelo contrário, é um ato de republicanismo clássico. Existe um partido de esquerda e vota-se nele normalmente como se -votaria em outro partido. E o segundo-testemunho é a esperança como convicção de futuro. Esperança essa que precisa ser construída.

Nesse momento doloroso, político-partidário, que estamos vivenciando, o voto pode ser este agente de transformação, de insurreição e por que não de construção da esperança?

Dr. Rui Peixoto
Médico Cardiologista

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