A velhice como uma doença?

Sucede que tanto vivi.
Que quero viver outro tanto.

(Neruda)

Hospital Conceição, ambulatório, sala 12, inverno 2006. A Sra. M.R.P, 86 anos em lágrimas:

Somos penalizados por viver mais tempo. Quanto mais envelheço, mais doenças. Não tenho mais energia para cozinhar os almoços de domingo, esqueço alguns temperos.

Paul Claudel, poeta francês, ao completar 80 anos, em resposta a versos pessimistas de Schakespeare sobre a qualidade de vida nos idosos, assim se expressou:

Oitenta anos passados. Não tenho mais vista, nem ouvidos, nem dentes, nem pernas, nem fôlegos, e uma vez feita as contas, a gente pode muito bem passar sem eles.

Uma estimativa do Instituto Nacional de Saúde dos EUA calcula que entre 5 a 10% da população  com mais de 65 anos sofre de demência. Esse número aumenta para cerca de 19% no grupo etário que abrange indivíduos de 75 a 84 anos.

Décio Freitas, em seu artigo ZH, dezembro de 2003. “Velhos, malditos velhos”, critica a questão econômica da longevidade abordada pelo banqueiro norte-americano Peter G. Peterson, que afirma que o futuro econômico mundial tinha na velhice sua maior ameaça, mais que as guerras, armas químicas e terrorismo. O mundo capitalista não iria sobreviver aos custos sociais cada vez mais elevados sob a forma de aposentadorias e assistências médicas. Uma barbárie. Meses depois, falecia o elegante historiador e escritor Décio Freitas com mais de 80 anos em plena lucidez intelectual.

Um dos males da velhice é a solidão, a perda da referência afetiva. Trabalhos de observação clínica, comparando os idosos americanos que viviam em luxuosas clínicas geriátricas com os idosos que moravam sozinhos ou acompanhados de familiares, demonstram que os que viviam em seus próprios ambientes tinham melhor qualidade e quantidade de vida. E mais, os que moravam sozinhos, lutando pela sua sobrevivência, eram mais felizes. Os idosos com hábito da leitura, televisão e principalmente, os que escutavam rádio tinham, comparativamente, menos déficit de memória dos que viviam isolados. A memória íntegra é fundamental. Sua prevenção é importante nos tempos atuais.

Javier Cercas descreve a despedida de Miralles, um velho comunista espanhol de 82 anos, na porta de um asilo francês:

– Posso pedir um favor? Faz muitos anos que não abraço ninguém.

Ouvi o barulho da bengala de Miralles caindo na calçada, senti que seus braços enormes me espremiam e que os meus mal conseguiam envolvê-lo, me senti muito pequeno e muito frágil, senti o cheiro de remédios e de anos de clausura e de verdura cozida e sobretudo de velho, e soube que esse era o cheiro dos heróis.

Dr. Rui Peixoto
Médico Cardiologista

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2 Responses to A velhice como uma doença?

  1. Diogo M.Duarte disse:

    Ao invés de reclamar de parte de nosso corpo que já não funcionam bem, poderíamos elogiar as que estão funcionando a contento.

  2. […] M.R.P, 86 anos em lágrimas: “Somos penalizados por viver mais tempo. … fique por dentro clique aqui. Fonte: […]

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