A Simbologia do Coração

A simbologia do coração passa pelos escapulários, árvores de parques, mas principalmente, pelo intimismo da paixão. E do corpo, a porção que sente saudade, ódio, amor, quase sempre tudo simultâneo. Nada mais antigo é definir caráter, jeito, usando o coração. De ouro, pedra, vidro, solitário; é uma coisa sem fim, que termina em Lorca falando em coração cigano. Mas tudo isso toma uma importância maior, quando “ele” passa para uma unidade de cuidados coronarianos ou para o bloco cirúrgico.

Em uma comunidade nos Estados Unidos, Framinghan, durante vinte anos foram observadas 5.000 pessoas de classe média. O acompanhamento foi excelente, pois 90% dos indivíduos desta comunidade foram estudados durante este longo período de tempo. Os fatores de risco que levaram à arterosclerose coronária e suas conseqüências maiores, o infarto do miocárdio e morte súbita, foram principalmente a hipertensão arterial, fumo e colesterol elevado. O fumo, através do monóxido de carbono, aumentando a agregação plaquetária e formando o trombo; o colesterol-LDL, invadindo as paredes das artérias, iniciando a formação da placa de gordura e a pressão alta colaborando para tudo isso. Mas há os antigos  trabalhos, que relatavam que os pássaros do Zoológico Califórnia tinham mais arterosclerose que os da mesma família na África (estresse e saudade). Que os italianos gordos e bebedores de vinho, em Nova Iorque, tinham mais infarto que os italianos gordos e mais bebedores de vinho nas aldeias italianas de origem (estresse e competição). Na comunidade ítalo-amerícana de Roseto, na Pensilvânia, onde um grupo étnico homogêneo de pessoas apresenta incidências de morte por infarto de menos da metade dos observados na localidade vizinha. Esta comunidade caracterizava-se por seu padrão de vida alegre, sem inibições, com quase nulo espírito competitivo, econômico e social.

Os fúncionários burocráticos dos correios e telégrafos de Londres tinham mais problemas coronarianos que os carteiros (estresse e vida sedentária). Um grupo de coelhos de laboratório que recebiam gorduras, injetadas nas veias e outro grupo de coelhos que, além de gordura, tinham as suas pernas quebradas, apresentavam mais precocemente o início da formação da placa de gordura (estresse e dor).

Os resultados de Framinghan, Massachussets, mostraram que se o indivíduo for fumante, seu risco de desenvolver arterosclerose é de 1,6 vezes maior em relação ao não-fumante. Se for hipertenso, o risco aumenta em três vezes e, se apresentar colesterol elevado, o risco aumenta em quatro vezes. Porém, se o indivíduo for fumante e hipertenso, o risco sobe para 4,5 vezes, se for fumante, hipertenso e com colesterol elevado, o risco eleva-se 16 vezes, demonstrando importância não só de um fator de risco, como a interação entre eles. Dos resultados obtidos sobre arterosclerose coronária na área médica, os anestesistas, intensivistas, cardiologistas e por último, os dermatologistas, em ordem de exposição à tensão emocional elevada, têm maior probabilidade estatística de apresentar o primeiro evento coronariano.

Na verdade, nós agredimos o nosso coração com estes fatores: fumo, pressão alta, colesterol elevado, vida sedentária e obesidade. E o resto é o estresse, palavra que resume a nossa auto-agressão, através, principalmente do desamor. O Dr. Jatene falou uma coisa tão simples e completa. “Nós agredimos o nosso coração quando vivemos e trabalhamos acima da nossa capacidade física e intelectual” e com muita animosidade oculta na área afetiva. São palavras de um cirurgião que rompe a nossa simbologia maior quando troca as válvulas cardiacas por próteses mecânicas ou biológicas, coloca ponte de safena nas coronárias, marcapasso artificial no sistema de condução e transplanta um outro coração. A simbologia está quase sempre presente nas trocas de válvulas cardíacas. Um paciente do Dr. Lucchesi, tinha uma réplica da mesma no chaveiro. Outro paciente costumava gravar suas músicas tendo como fundo o ruído da válvula artificial.

Tudo o que escrevi é uma homenagem a um médico judeu-russo de nome Hisschautt. Com a sua morte, é mais uma referência que não volta mais. Costumava dizer: “Todo está en el corazón”. Médico judeu-russo, venezuelano que desejava trabalhar e morar em São Paulo. Um coração cigano.

Dr. Rui Peixoto
Mádico Cardiologista

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2 Responses to A Simbologia do Coração

  1. belfisio disse:

    Belo texto!

  2. yemolai disse:

    pow adorei o texto
    vc escreve mt bem mesmo viu

    by yuuko

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