O médico e o monstro do humor

Artigo escrito em homenagem a Carlos Nobre, que foi uma das figuras mais notáveis do jornalismo de humor da segunda metade do século no Rio Grande do Sul .

“Nós somos daquelas pessoas que ficam inteligentes após as 8 horas da noite”. Todo o humor do mundo, Fernando Pessoa, o ser humano gozado e cerveja gelada – por que não? – ligaram Nobre e eu para sempre, de maneira afetiva. O relacionamento médico-paciente era fundamentado no carinho, no afeto, e na mais pura respeitabilidade do ato individual de viver. “Tomo os remedinhos direito – e era verdade – o resto nós negociamos”. Do whisky para a cerveja, dos sessenta cigarros para trinta, do sal para o limão, alho e tempero verde. Mas a doença evoluía. Começou com infarto do miocárdio, muito precocemente, aos 44 anos. A isto juntou-se um diabete e uma artrite quase incapacitante. Nos dois últimos anos de sua vida sentia muita dor, e o sofrimento era quase intolerável. Não perdia o humor. Com a artrite fez piada com Jaqueline Onassis: “Mãe, estou com artrites. Outro grego, filha?” E com as outras doenças. Adorava chamar a medicina convencional, e a nós médicos, de incompetentes. “Não curam reumatismo, gripe e câncer. Mas adoram fazer transplantes. Dá manchete”. Sobre transplante gostava de falar. Talvez fosse seu pensamento mágico para a resolução de sua doença.

“Nós, somos movidos a afeto, e o meu médico tem muito senso de humor”. Me deliciava escutando quando o Nobre me apresentava aos amigos de bares, jornal e às figuras mais humildes e afetivas que o cercavam diariamente. Chamava-o de populista, lê o Pilla Vares, respondia – Referência elogiosa a um artigo do Pilla sobre populismo. Com formação humanística, na política era um socialista. Se irritava com as divergências da esquerda. Sofria com o terrorismo, não entendia. O livro “Socialismo e Liberdade”, do Pilla raptei de sua mesa. Os dois tinham uma historinha muito engraçada. O Nobre chegava na redação da Zero Hora, perguntava para o Pilla Vares: “Tens bebido? “ O Pilla respondia: “Não”. O Nobre dizia “Pergunta pra mim!”. “Nobre, tens bebido? “Muito”. A cena repetiu-se durante muito tempo, com a mesma representação teatral, cênica.

Com relação à religião, nunca descobri. Fica uma grande dúvida. Se era um padre católico ou um rabino secreto no Bonfim. Nenhum humorista fez tanto humor com a raça judaica. Nobre era um goi amado dentro da Colónia, portanto, tudo permitido. Com reservas a Vinícius de Morais quando fala sobre o negro de alma branca, Nobre era em judeu nascido em Haifa e registrado em Guaíba. Com relação ao Carnaval, era definitivo: “Quero o general Custer dando um fim nas tribos de índios que desfilam no carnaval de Porte Alegre e no negrão roxo” – jornalista Carlos Alberto Barcellos, responsável pela página de carnaval de Zero Hora.

No futebol era gremista. Escutava as partidas, procurando tirar proveito das gafes dos jogadores nas suas entrevistas. Dizia uma coisa: “Rubens Hofmeister é meu amigo. O personagem Rúbis vai terminar com o Rubens Hofmeister presidente da FIFA”. E era verdade. Uma vez, sentados no bar Oásis, Hofmeister pediu a Nobre que parasse um pouco com o humor sobre ele e logo em seguida que o Hofmeister retirou-se Nobre me falou “Tá correndo aquela de que o Hofmeister chegou em Porto Alegre sem nada e hoje tem quatro Ferraduras”. Mas gostava muito de Hofmeister. E o Rúbis era um personagem, como era o personagem Dias, em que, num final de tarde de inverno eu gozava com Nobre sobre os pensamentos do Dia, que geralmente aparecem em almanaques tipo Biotônico Fontoura. Eu disse, Nobre, vamos ter que criar o Dias, um anárquico tropicalista. O Dias foi muito bem retratado pelo Edgar Vasquez em “Nobre do Princípio ao Fim”, seu primeiro livro. O Dias era o personagem de quem Nobre gostava, e era também o seu verdadeiro humor. Difícil de ser feito, mas retratava a maneira regional porque Nobre, quando saiu para fazer sucesso no eixo Rio-São Paulo, me disse uma coisa que era definitiva: “Eu sentia saudades até dos chatos de Porto Alegre”.

Ele viveu para esta cidade, e retratou-a como nunca ninguém o fez. O Dias era realmente o porto-alegrense do dia-adia, o aposentado, o profissional liberal, o homossexual, o negro, o das classes menos favorecidas.

Sobre comida, era um apaixonado por donos de restaurantes. Do alemão, italiano, árabe, etc. e tinha razão. Eles o amavam e faziam aquelas comidinhas especiais, que nós, os amigos, aprendemos a saborear.
Era presidente de honra do Clube dos Donos de Restaurantes Italianos de Porto Alegre. O Marcos Rachewsky e o Wilson Muller eram seus vices, com muito carinho. A bebida, escassa nos últimos anos, mas apreciada com carinho. “O dia, em que não beber mais me deixe pelo menos sentar numa mesa, no verão e olhar para uma cerveja gelada, suando”. Esta fantasia era sua despedida das mesas dos bares. Nos últimos dois meses de sua doença não bebia mais. Como retinha muito líquido, pela insuficiência cardíaca, ficava muito inchado. Mas, tenho absoluta certeza que pensava nessa cena de bar, sentado, olhando uma cerveja suando.

Viveu em amores por Virgininha, sua grande paixão. Nos momentos ruins de sua vida deixava transparecer sua dependência afetiva à Vírginia. E ela correspondia. Acompanhava-o nos piores momentos, e tinha uma coisa que é importante para qualquer homem amado. Ria com o humor de Nobre. Frequentemente nos reuníamos em seu escritório. Ele fazia humor sobre alguma coisa, eu e Virgínia nos divertíamos muito, ríamos muito. Às vezes até com piadas muito antigas, que recriava. Isso era o grande ato de afeto, de amor, que eu via em Virgininha. Depois de tantos anos juntos, Nobre era ainda o seu homem amado, engraçado.

Escrever sobre Nobre, sobre Carlos Nobre, sobre José Evaristo Villalobos Júnior, sem pieguice, é muito difícil. Porque dentro daquele humorista fantástico existia um outro homem, que era tímido e que desejava ter sido um poeta. Sobre o titulo “O Médico e o Monstro do Humor”, é que ele me chamava às vezes de Dr. Jeckyl. Quando me chamava de Dr. Jeckyl, o monstro, é porque ele estava em fase de muito sofrimento, de dor. Este recado geralmente recebia quando marcávamos encontro, ou no Galetão, no parque Harmonia, ou mesmo no Copacabana, nos domingos ao meio-dia. Quase sempre me atrasava, então ficava seu recado: “Diga ao Dr. Jeckyl para telefonar para mim”.

Sobre o segundo livro de Nobre, foi condensado o seu melhor humor. “Nobre e Outras Boas” foi uma preocupação muito grande. Queria o seu livro na Feira antes de morrer. Na tarde de autógrafos compareceram muitos amigos. E Nobre, emagrecido pela própria doença, abatido, estava muito feliz. Porque era um livro muito amadurecido, retratando todo o seu bom humor.

Com relação à música, era um apaixonado pela brasileira, a seresta, o samba. Em 1981, na inauguração da Sala Carlos Nobre no Copacabana, nos deliciamos escutando ele cantar um música que Lupicínio Rodrigues fez para ele: Zé Ponte. Na música, Lupi dizia que, somente Nobre, com toda a sua voz, com todo o seu humor, com todo o seu sentimento, poderia cantá-la. Nobre recebeu uma carta de Lupi, nunca abriu. Ela foi escrita 15 dias antes do morte de Lupicínio. Talvez seja este sentimento de perda irreversível, irreparável que Nobre tinha sobre as pessoas que fez com que nunca abrisse essa carta.

Leia coluna de Carlos Nobre sobre a criação do Dias

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2 Responses to O médico e o monstro do humor

  1. cardiologista rui peixoto disse:

    Jose Evaristo, um carinho em todos os familiares.Mandei um artigo para ZH, mas não publicaram. A hora de se despedir. Falo, no meu querido amigo Nobre (me ajudou muito)e a sua relação com o Lupicinio. Leia. Abraços . Feliz com o teu comentário.

  2. JOSÉ EVARISTO VILLALOBOS NETO disse:

    AMIGO RUI, AGRADEÇO PELA LEMBRANÇA DO PAI QUE REALMENTE FOI UM GRANDE HOMEM E HUMORISTA GENIAL.. PARABÉNS PELO RESGATE HISTÓRICO COMPLETO. O PAI SEGUE INSUBSTITUÍVEL. ATÉ HOJE NÃO SURGIU HUMOR DIÁRIO COMO ELE CRIAVA DENTRO DA IMPRENSA GAÚCHA..
    TU FOSTES UM AMIGO QUE O PAI SEMPRE ADMIROU E COMPARTILHOU GRANDES MOMENTOS DE SUA CURTA MAS CARISMÁTICA VIDA. UM ABRAÇO DO JOSÉ EVARISTO.

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