A morte não importa. É o medo do sofrimento.

Na Quarta-Feira de Cinzas do verão de 1971, como residente de primeiro ano, estava de plantão no Instituto de Cardiologia. Na rua, o arrastão do Carnaval da Santana. Minha escola de samba era “Os Fidalgos e Aristocratas.” Na unidade de tratamento intensivo, morria uma senhora judia, 82 anos, tinha um número escrito no braço, de um campo de concentração. Veladamente, tínhamos carinho maior por ela. O chefe do plantão, doutor Flávio Pereira, ser humano muito especial, me chamou e disse que a notícia da morte fazia parte da formação médica e eu tinha sido o escolhido. Sua única filha me aguardava. Contou a história de sua mãe, a cidade polonesa de origem, os campos de concentração e a felicidade de ter uma filha engenheira. Todos os plantonistas  já tinham ido embora, só a deixei quando disse que voltaria para Haifa, Israel, feliz por sua mãe:

Após tanto sofrimento em vida, teve uma morte tranquila.

Anos depois, como plantonista do Hospital Beneficiência Portuguesa, fui chamado por um paciente que queria agradecer por não ter sofrido dores durante sua enfermidade, já que sentia que estava perdendo a esperança. Morreu horas depois.

Trabalhei na UTI muitos anos e inúmeras vezes dei a notícia da morte. O mesmo cuidado de sempre: “teve uma morte tranquila e sem sofrimento”. A nossa onipotência, nossa arrogância, “a falta de uma consciência muito mais clara de que a espécie humana é uma comunidade de mortais”, durante muitos anos nos prejudicou no enfrentamento com a morte. Norbert Elias afirma também que “o fato de que, sem que haja especial intenção, o isolamento precoce dos moribundos ocorra com mais frequência nas sociedades mais avançadas é uma das fraquezas dessas sociedades”.

A negação da morte é um dos primeiros e mais primitivos mecanismos de defesa do ser humano. Muito se tem falado sobre limites do tratamento médico. O médico (holândes) vai além da notícia da morte tranquila e sem sofrimento, vai, sim, em busca de uma morte mais digna, assistida, distinta da solidão da morte nas unidades de tratamento intensivo. Nietzsche tinha razão:

A grande recompensa dos mortos é não morrer nunca mais.

 

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